Empreendedora social está redesenhando sistemas de cuidado em saúde mental com base em dados e evidências

Maria Fernanda Quartiero acaba de ser reconhecida como Fellow da rede global da Ashoka 

Três pessoas sentadas em poltronas falam em um painel. Atrás delas, há uma televisão que dá destaque ao Panorama da Saúde Mental

Para Maria Fernanda Resende Quartiero, a saúde mental é a base da experiência humana. Foi essa convicção que a levou a criar o Instituto Cactus, organização que derruba estigmas ao integrar produção de dados, incidência política e diálogo intersetorial, ampliando a capacidade de cada pessoa de contribuir para a criação de comunidades mais saudáveis e resilientes. Por sua visão e pelo impacto sistêmico de sua atuação, Maria Fernanda acaba de ser reconhecida como Fellow da Ashoka, organização pioneira no campo do empreendedorismo social, presente em mais de 90 países.
 

Impacto sistêmico para a saúde mental coletiva

A trajetória de Maria Fernanda partiu de projetos de impacto imediato, mas logo evoluiu para uma pergunta mais profunda: como enfrentar as raízes dos problemas? Ao mergulhar no campo da saúde mental, se deparou com diversas lacunas para a criação de uma sociedade mais saudável do ponto de vista da saúde mental, como a ausência de dados qualificados e atualizados, o estigma em torno do tema, a dificuldade da construção de ações intersetoriais e tantas outras. A partir daí, nasceu o Instituto Cactus.

A organização desenvolve parcerias e apoia projetos voltados para dois públicos especialmente vulnerabilizados aos desafios de saúde mental: mulheres e adolescentes. “Esses grupos são importantes agentes de mudança, mas ainda sofrem com a falta de dados e políticas públicas eficazes”, diz Maria Fernanda. Para que essas vozes não apenas sejam ouvidas, mas liderem, o Instituto conta com um Comitê de Jovens, que orienta as ações da organização voltadas para adolescentes e propõe novas iniciativas, levando suas experiências e demandas para o centro das discussões sobre saúde mental.
 

Quando faltam dados, faltam soluções

Um dos principais esforços do Instituto é gerar dados e produzir conhecimento que apoie a tomada de decisão e a construção de soluções que enderecem as necessidades da população. Uma dessas iniciativas é o Panorama da Saúde Mental, desenvolvido em parceria com o AtlasIntel. Desde 2023, a ferramenta coleta dados sobre a saúde mental dos brasileiros, que alimentam o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (iCASM). Isso possibilita a construção de uma série histórica e uma base de dados que apoiam a produção científica e orientam a formulação de políticas públicas. "Como empreendedora social, quero que a temática da saúde mental ganhe a perspectiva necessária para a garantia de direitos, gerando impacto real na educação, na economia e no país como um todo”, afirma Maria Fernanda.

O Instituto Cactus também contribuiu com a criação do Índice de Promoção da Saúde Mental de Crianças e Adolescentes (IPSM), em parceria com a Vital Strategies, que oferece informações estratégicas para que estados e municípios formulem políticas com atenção a territórios vulnerabilizados. Os principais achados foram apresentados a membros da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados e à Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde, fortalecendo o diálogo institucional e a articulação política.
 

Da produção de dados à transformação de políticas públicas

Outro pilar central do trabalho de Maria Fernanda é centralizar o debate da saúde mental dentro das políticas públicas. A organização oferece suporte técnico a parlamentares, participa de audiências públicas, informa a mídia, mobiliza a sociedade civil e monitora o andamento das políticas de saúde mental. A principal conquista nessa frente foi o apoio na construção e, posteriormente, a sanção da Lei 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares — beneficiando potencialmente mais de 47 milhões de estudantes da educação básica em todo o Brasil.

Ao mesmo tempo, o instituto busca promover melhorias nas políticas públicas já existentes, enfrentando os desafios contínuos de implementação e gestão. Nesse sentido, trabalha com organizações parceiras para oferecer ferramentas para apoiar os gestores públicos a nível municipal e estadual a enfrentarem os desafios da gestão da saúde mental no território.

Sua abordagem baseada em dados muda a lógica de como as redes de saúde lidam com a saúde mental: o tratamento reativo dá lugar ao cuidado proativo. Isso possibilita a alocação equitativa de recursos e respostas adequadas ao contexto de cada território, além de promover maior transparência e responsabilidade nas políticas públicas.

O reconhecimento de Maria Fernanda como Fellow Ashoka é resultado de um processo rigoroso e aprofundado de avaliação. Ao longo de meses, a equipe Ashoka mergulhou em sua história de vida, no funcionamento do Instituto Cactus e em sua capacidade de gerar impacto sistêmico — mudanças duradouras em políticas públicas, práticas de mercado e normas sociais que moldam a vida de comunidades inteiras. “Em um país onde o tema ainda carrega forte estigma, Maria Fernanda abre caminhos para acolhimento, escuta e transformação, trazendo novas possibilidades de cuidado e pertencimento”, afirma Kelly Matias, coordenadora de Busca e Reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka.

Ao integrar essa rede global, Maria Fernanda busca se conectar a uma comunidade que possibilita a troca de metodologias e o aprimoramento de suas estratégias. “Ser reconhecida como Fellow Ashoka valida o nosso compromisso com a ciência e a inovação, acelerando a construção de um futuro em que a saúde mental seja um tópico central em todas as esferas”, afirma.

Saiba mais sobre Maria Fernanda: ashoka.org/pt-br/fellow/maria-fernanda-resende-quarteiro