Empreendedor social está usando jornalismo para combater desigualdades informacionais nas periferias
À frente do Território da Notícia, Ronaldo Matos é reconhecido como Fellow da rede global da Ashoka
Ronaldo Matos cresceu lendo as revistas e jornais da banca de seu pai, no Jardim Ângela, em São Paulo. Nas páginas, se deparava com notícias que estigmatizavam o seu bairro, retratando apenas a violência e a exclusão social. Essa experiência despertou nele a vontade de contar outras histórias, que valorizassem a potência de territórios marginalizados e das pessoas que neles vivem.
Ronaldo acaba de ser reconhecido como Fellow da Ashoka, organização pioneira no campo do empreendedorismo social, presente em mais de 90 países. “Ronaldo questiona quais narrativas chegam até nós e como são construídas”, afirma Kelly Matias, coordenadora de Busca e Reconhecimento de Empreendedores Sociais Ashoka. “Ele está criando espaços para que favelas e periferias possam produzir e compartilhar suas próprias histórias”.
Ronaldo criou uma estratégia integrada que está transformando a maneira como populações vulnerabilizadas consomem e se relacionam com as notícias: jovens periféricos aprendem a fazer jornalismo e produzem conteúdos sobre seus territórios, que chegam a centenas de milhares de pessoas por meio de uma solução tecnológica.
Juventudes protagonizando o jornalismo
Tudo começa com o Você Repórter da Periferia, uma escola de jornalismo cofundada em 2013 por Ronaldo e Thais Siqueira, cofundadora do Desenrola e Não Me Enrola, para jovens entre 16 e 25 anos. A iniciativa conta com módulos teóricos e oficinas práticas, além de imersões nas periferias de São Paulo para a produção de reportagens.
Em um cenário no qual as pessoas têm se afastado cada vez mais do jornalismo profissional — dados de 2024 da Reuters Institute indicam que 47% dos brasileiros evitam consumir notícias —, Ronaldo aproxima jovens dessa área, equipando-os com habilidades para analisar criticamente os conteúdos presentes no ambiente digital e para se tornarem os próprios produtores das notícias. Muitos deles acabam ingressando em graduações de jornalismo ou comunicação.
Fortalecendo o jornalismo de interesse público nos territórios
Os conteúdos produzidos pelos estudantes são publicados pelo Desenrola e Não Me Enrola, plataforma com mais de 20 mil visitas mensais que combate os desertos de notícias nas periferias. Para além da denúncia, o Desenrola também traz à tona histórias de transformação social que nascem dos próprios territórios.
Por fim, tudo deságua no Território da Notícia. A iniciativa surgiu em 2017, quando Ronaldo percebeu que, embora o Desenrola desse visibilidade à realidade das periferias de São Paulo, as redes sociais e grandes plataformas de tecnologia não garantiam a distribuição acessível dessas informações para quem mora nas periferias e favelas.
Aproveitando a sua cultura de trabalho colaborativo e em rede, o cofundador do Território da Notícia percebeu a oportunidade de criar essa tecnologia em colaboração com outras organizações de jornalismo das periferias de São Paulo, e assim a iniciativa ganhou uma versão robusta em 2021, que está em pleno processo de crescimento, sendo gerida e escalada para o Brasil em parceria com a Periferia Em Movimento.
Diante desse cenário, o Território da Notícia instala totens digitais em supermercados, lojas, farmácias e outros pontos de grande circulação nas periferias de São Paulo, de modo que moradores passam a ter fácil acesso a notícias locais confiáveis e conteúdos educativos, como divulgações de campanhas de vacinação e inscrições para programas educacionais, convites para eventos na região, reportagens sobre empreendedores locais, até pesquisas interativas e enquetes.
Atualmente, esses conteúdos são produzidos por uma rede de 19 veículos de jornalismo independente, e possibilitam que as pessoas se mantenham informadas sem depender dos algoritmos das redes sociais, inclusive em áreas com conexão limitada à internet. Hoje, há 15 totens espalhados por 10 distritos da Grande São Paulo, que alcançam cerca de 650 mil pessoas todos os meses e já veicularam mais de 2.500 histórias. Dessa forma, o Território da Notícia reacende a confiança da população no jornalismo profissional, apoiando a tomada de decisões de maneira informada e fortalecendo veículos e comunicadores comunitários.
Ronaldo também tem colaborado com o Governo Federal na construção de orientações para o letramento digital e midiático, integrando um grupo de especialistas responsável pela elaboração de um Guia de Boas Práticas sobre direitos digitais, além de contribuir com a publicação “Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre o Uso de Dispositivos Digitais”.
O reconhecimento de Ronaldo como Fellow Ashoka é resultado de um processo rigoroso e aprofundado de avaliação. Ao longo de meses, a equipe Ashoka mergulhou em sua história de vida, no funcionamento do Território da Notícia e do Desenrola e Não Me Enrola, e em sua capacidade de gerar impacto sistêmico — mudanças duradouras em políticas públicas, práticas de mercado e normas sociais que moldam a vida de comunidades inteiras.
Seu objetivo é ampliar a capacidade de cada cidadão de combater a desinformação com conhecimento e criticidade: “Tenho trabalhado na cocriação de metodologias abertas que podem conectar governos locais, organizações de jornalismo, sociedade civil e universidades para qualificar os hábitos de consumo de informação das populações mais impactadas pelas desigualdades sociais e informacionais, fortalecendo soluções comunitárias vindas das periferias, favelas, quilombos e terras indígenas, e reduzindo a dependência das big techs”.
Saiba mais sobre Ronaldo: ashoka.org/pt-br/fellow/ronaldo-matos