Introdução
À frente do Fundo Agbara, Aline Odara promove justiça econômica e reparação histórica, incentivando uma nova visão da filantropia no Brasil e fortalecendo o empreendedorismo de mulheres negras.
A nova ideia
O Fundo Agbara é o primeiro fundo dedicado a mulheres negras no Brasil. Além de promover renda direta para um dos grupos mais vulnerabilizados na sociedade brasileira, a estratégia de Aline também engloba todos os participantes do ecossistema de investimento para assegurar o acesso de mulheres a oportunidades de financiamento e desenvolvimento. Ao oferecer cursos e apoio financeiro para empreendedoras negras; influenciar filantropos, empresas e governos a assumirem compromissos de reparação histórica; e compartilhar sua mensagem com o grande o público, Aline combate o racismo estrutural, e promove inclusão produtiva, equidade de raça e de gênero.
A metodologia do Agbara contribui com a estabilidade socioemocional, a geração de renda, e a inclusão produtiva de mulheres negras. Os atores mobilizados pelas organizações participantes estão divididos em três grupos: A) empreendedoras, profissionais e lideranças negras, que precisam de apoio; B) empresas, filantropos e governos, detentores de poder que devem mudar suas políticas e práticas; C) público geral, que – com letramento racial pode passa a apoiar a causa.
O Fundo Agbara atua com foco na Justiça Econômica para mulheres negras, investindo recursos financeiros, formações e conexões para ampliar as possibilidades de autonomia financeira, cuidado coletivo e poder político. Sua atuação se estrutura em quatro frentes principais: (1) Fomento, com doações financeiras e jornadas educacionais que impulsionam soluções locais lideradas por mulheres negras, fortalecendo sua atuação profissional e autonomia; (2) Conhecimento e Advocacy, unindo produção de dados e memória com incidência política para influenciar políticas públicas, o campo da filantropia e o setor privado na promoção da justiça social, econômica e climática; (3) Consultoria em Diversidade, apoiando organizações em seus processos de letramento racial e na construção de planos de ação para equidade racial com impacto real; e (4) Diálogos sobre Raça e Cultura Negra, promovendo eventos, participações públicas e o Festival Agbara como espaço de valorização dos saberes ancestrais, arte negra e geração de renda para empreendedoras. Essas frentes se articulam para transformar estruturas e fortalecer o protagonismo das mulheres negras na economia e na sociedade.
Aline acredita que nos próximos 5-10 anos, o Fundo Agbara continuará a trabalhar no fortalecimento desses pilares, pois enxerga que são fundamentais para uma mudança sistêmica. O Fundo Agbara também busca espalhar seu conhecimento e influência pelo país. Para isso, cria parcerias com organizações locais que participam de seus projetos de mentoria e realiza treinamentos abertos ao público, a fim de atingir novos grupos de empreendedoras negras que precisam de apoio.
O problema
O último Censo nacional aponta que 28,3% da população brasileira é composta por mulheres negras (60,6 milhões de pessoas), das quais 48,3 milhões estão em idade economicamente ativa. Mesmo sendo o maior grupo populacional do país, um levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), de 2024, concluiu que se trata do grupo que menos se beneficia de avanços sociais, especialmente após a pandemia, período em que o IDH do Brasil retrocedeu seis anos, voltando ao mesmo patamar de 2014.
Aproximadamente 27,4% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres negras. Esses lares, em média, abrigam mais pessoas – tanto crianças quanto adultos – do que os lares liderados por outros grupos. Além disso, cerca de 60% da população mais pobre depende dos cuidados e trabalhos provindos de mulheres negras para a sua sobrevivência. Entretanto, na maior parte dos casos, são essas mulheres que mais sofrem de violências multidimensionais, criando um efeito cascata que afeta a população negra e marginalizada como um todo. Estima-se que 7.6 milhões de mulheres negras estão à margem do trabalho formal devido às suas responsabilidades em âmbito doméstico e ao cuidado com crianças e outros familiares.
Como apontam o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e Ministério da Igualdade Racial, esse também é o grupo populacional mais afetado pelo desemprego (33,9%), índice que cresce à medida que aumenta o nível de pobreza. Mulheres negras também representam 32,8% da população com uma renda mensal de até meio salário-mínimo e 42,5% das pessoas em situação de extrema pobreza. Consequentemente, elas compõem o grupo que mais é exposto à baixa expectativa de vida, escassez de oportunidades educacionais e permanência em contextos marginalizados.
Como uma alternativa para esse sistema hostil, estruturalmente racista e explorador do mercado de trabalho, a comunidade negra frequentemente recorre ao empreendedorismo. De acordo com o SEBRAE (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), em 2023, empreendedores negros formavam 52% dos donos de empreendimentos brasileiros (formalizados ou não) e 24% da população nacional empreendedora são de mulheres negras. Apesar de ter a maioria no setor empreendedor brasileiro, os proprietários negros de pequenas e microempresas têm os menores níveis de renda (77,6% ganham até dois salários-mínimos por mês) e o menor nível de escolaridade (45,1% completaram apenas o ensino fundamental). O problema não reside somente na disparidade em renda ou instrução, mas também no tipo de atividade exercida: 78% dos empreendedores negros estão concentrados em apenas dez setores, entre eles comércio, agropecuária e construção, o que revela uma baixa diversidade de ocupações dentro desse grupo. O empreendedorismo negro também encontra enormes barreiras, como a falta de acesso a crédito, recursos financeiros, treinamento técnico e networking, além da enraizada discriminação racial. O exercício pleno do empreendedorismo pressupõe a capacidade de absorver os riscos e falhas inerentes ao negócio. Essa realidade é distante para muitos líderes negros à frente de micro e pequenas empresas, que frequentemente atuam na informalidade e enfrentam condições de trabalho precárias, sem qualquer tipo de proteção social.
A estratégia
Com o Fundo Agbara, Aline busca apoiar reparações históricas no Brasil ao promover justiça econômica e democratização do acesso a recursos filantrópicos. O Agbara se destaca como um dos dois únicos fundos dedicados exclusivamente a iniciativas negras e, ao mesmo tempo, como o primeiro fundo voltado para mulheres negras no Brasil. Aline quebra ciclos viciosos de escassez para mulheres negras ao garantir acesso a renda e trabalho dignos, encorajando a filantropia brasileira a adotar mais meios democráticos de inclusão.
Diferentemente da maioria das organizações filantrópicas, o Fundo Agbara não tem caráter familiar ou corporativo: ele nasce do associativismo negro e evidencia a insuficiência das ações do Estado brasileiro diante de sua dívida histórica com a escravidão. Sua metodologia, estruturada em cinco pilares, busca transformar a realidade de mulheres negras em situação de vulnerabilidade, fortalecer lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil, além de influenciar práticas de filantropos, doadores, empresas e órgãos públicos. Paralelamente, promove campanhas e projetos especiais para sensibilizar a sociedade em geral, ampliando a conscientização sobre o problema e criando oportunidades para a comunidade negra. Para apoiar as mulheres, o Fundo Agbara promove o exercício pleno de seus direitos econômicos, combatendo a subordinação social, psicológica e financeira gerada pelo racismo e sexismo. Realiza chamadas públicas para financiar iniciativas de mulheres negras e oferecer ciclos formativos com foco em inclusão socioprodutiva. Essas chamadas abertas ao público são voltadas a temas específicos, que são escolhidos por meio de conversas com lideranças de diferentes setores, para abordar os desafios reais do meio em que estão inseridas. Implementado desde 2022, já atingiu mais de 4.000 mulheres atendidas, R$ 2,5 milhões investidos em programas, e R$ 1 milhão em repasse direto para as mulheres negras. O fundo construiu uma cartela de projetos focados em diferentes assuntos para empreendedoras de campos diversos (chamada pública intitulada Avança Preta); para empreendedoras no setor de alimentos (Ajeum); uma para mulheres que fazem coleta de resíduos (Atunlo Ife); para coletivos de mulheres negras (Malunga); voltados para a empregabilidade no setor portuário (Porto para Elas); para profissionais no campo da estética (Lewá); e edições dedicadas a sobreviventes de violências (Ìrèle).
Os subsídios garantem uma renda direta para essas mulheres, variando entre R$5.000 e R$ 20.000 em cada ciclo formativo. O trabalho desenvolvido por Aline também fortalece essas mulheres em questões técnicas e institucionais para que possam acessar outros tipos de captação de recursos. As participantes selecionadas passam por formação técnica, socioemocional e política.
Na seleção, o Fundo Agbara prioriza mulheres que enfrentaram múltiplas formas de violência, como mulheres trans negras, mães solo com mais de três filhos e ex-detentas. Ao final do programa, as participantes constroem seus projetos de vida, de negócios, estratégia ou carreira. As mulheres formadas se juntam à rede do Agbara para que sejam incluídas em projetos recorrentes de suporte financeiro e conexões. O Fundo também ministra aulas abertas com o intuito de compartilhar conhecimento técnico e de participação cidadã. Desde julho de 2024, a organização possui um Fundo de Assistência Emergencial para apoiar mulheres que lutam pelos direitos humanos e estudantes, com um valor que pode chegar a R$3.000 por candidata.
A incidência no campo filantrópico, tendo como foco filantropos, doadores, empresas e órgãos públicos, é baseada em três dos cinco pilares da estratégia do projeto. Esses pilares são a chave para a mudança sistêmica que Aline busca, pois sabe que apenas o Fundo Agbara não é suficiente para apoiar todas as mulheres negras em situação de vulnerabilidade no país. No entanto, ao transformar o ecossistema da filantropia e pautar a justiça econômica para mulheres negras como uma prioridade na agenda política, é possível gerar mudanças duradouras no contexto brasileiro. O trabalho com esses parceiros consiste em uma consultoria de diversidade pela qual o Fundo visa conscientizar empresas, orientando-as a incluir e garantir a permanência de pessoas negras — especialmente mulheres — nos espaços de trabalho. O projeto estimula a liderança negra feminina, seu progresso profissional, participação ativa em cargos de tomada de decisão e estímulo à equidade racial e de gênero nos locais de trabalho, além de ser uma fonte de receita para a organização.
O Fundo Agbara também faz incidência política, ao advogar pela justiça econômica para mulheres negras nas políticas públicas do Brasil. Promovem debates em rede, produzem materiais informativos e incentivam os setores privado e público a investirem em organizações comunitárias lideradas por mulheres negras. Desde 2022, o Agbara também educa a comunidade internacional sobre questões étnico-raciais, participando de vários eventos globais.
Para realizar incidência política com base em evidências, o Agbara investe na produção de dados e conhecimentos. Criou o Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (NUPEMN) que conduz estudos a partir de uma perspectiva racializada da filantropia. O NUPEMN tem por objetivo sistematizar, produzir e difundir dados e informações que contribuam para a Equidade Racial e Equidade de Gênero, sobretudo para as mulheres negras brasileiras e para o desenvolvimento do Campo da Filantropia do Investimento Social Privado, bem como resgatar e preservar a memória da população negra.
Para sensibilizar a sociedade como um todo, a equipe do Fundo Agbara realiza encontros e eventos que promovem letramento racial e acesso à informação em áreas como gênero, raça e classe, democratizando produções artísticas e culturais feitas por pessoas negras e a diversidade de expressões artísticas do Brasil. Os eventos incluem:
- Festival Agbara para Mulheres Negras: um evento multicultural e aberto ao público com performances, feira de economia criativa, discussões acadêmicas e oficinas para fomentar a inclusão produtiva de mulheres negras.
- Dia Antirracista: cursos formativos para pessoas não-negras com o objetivo de promover letramento racial na sociedade brasileira.
- Jantar Agbara: evento feito para celebrar as conquistas, arrecadar recursos e enaltecer as contribuições geradas por mulheres negras.
- Campanhas de Letramento Racial: iniciativas que disseminam conhecimento sobre questões raciais no Brasil, principalmente aquelas que afetam as mulheres negras.
- Julho das Pretas: programa com formações antirracistas, apresentações artísticas online e apoio a eventos e manifestações por justiça social.
Em três anos de existência, o Agbara teve impacto direto em mais de 6 mil mulheres negras por todo o país. O Agbara calcula que investiu mais de R$900.000,00 em mulheres negras. O Agbara também passou a integrar diversas redes para potencializar recursos, conhecimento e experiências, além de fortalecer sua capacidade de influenciar políticas públicas e promover mudanças significativas nas práticas do setor privado.
Nos próximos cinco anos, o Agbara está comprometido com mudanças sistêmicas, a aumentar os recursos captados e distribuídos e alcançar uma autossuficiência financeira para sustentar e ampliar a influência de seus projetos atuais e futuros. Os projetos em perspectiva incluem: um mecanismo de crédito para mulheres negras empreendedoras; a abertura de um Fundo de Bem-Estar para Líderes Negras para proporcionar saúde e bem-estar; a elaboração de um Fundo de Educação Antirracista; e a criação de um Hub para Mulheres Negras Empreendedoras para possibilitar grandes contratos de venda com as esferas pública e privada.
Aline também se concentra no desenvolvimento da equipe. Como uma organização jovem composta por 24 mulheres, a estratégia do Agbara para ampliar sua comunidade precisa também ser aplicadas internamente. A equipe busca aumentar os benefícios para seus funcionários, desenvolver suas habilidades e oferecer apoio emocional. A organização já conta com um grupo de estudos semanal com toda a equipe sobre Afrofuturismo para prepará-la para superar o racismo estrutural, além de responder às altas expectativas que lhes são impostas.
A pessoa
Filha de um pai negro e uma mãe branca, Aline teve de lidar com o racismo desde muito jovem. Seu pai deixou a família quando ela ainda era muito jovem, e Aline cresceu junto da família de sua mãe. Sendo a única pessoa negra na casa, ela sofria microagressões daqueles que mais amava, mas ainda não conseguia colocar um nome àquilo que vivenciava. Tudo mudou quando seu tio se casou com uma mulher negra. Nesse momento, Aline se reconheceu nessa nova integrante da família e percebeu que era diferente daqueles que a rodeavam. A partir daí, também passou a enxergar as diversas formas de racismo presentes em seu cotidiano.
Aline passou a se engajar nos movimentos negro e feminista adulta, e pouco tempo depois, recebeu uma bolsa de estudos do governo para estudar em uma renomada faculdade particular em Campinas (SP). Formada em Ciências Sociais, ela se tornou pesquisadora em relações étnico-raciais. Sempre tendo a coletividade como um traço marcante em sua pessoa, Aline era cuidadosa com seus colegas e comunidade, tendo um papel central nos movimentos ativistas em que estava inserida. Mais tarde, fez sua segunda graduação em pedagogia, estudando em uma universidade pública. Lá, organizou uma série de campanhas bem-sucedidas para viabilizar a permanência de estudantes de baixa renda na instituição. Em 2020, três anos após finalizar sua primeira graduação, Aline iniciou seu trabalho como professora na rede municipal de Campinas, o que lhe garantiu uma estabilidade que nunca havia vivenciado. Essa oportunidade deu a ela a determinação para utilizar seus conhecimentos para garantir que outras mulheres negras tivessem acesso ao mesmo conforto e segurança.
Durante a pandemia, com a acentuação das desigualdades sociais, Aline mobilizou campanhas de financiamento coletivo. Incomodada por ter que pedir dinheiro constantemente, ela decidiu estruturar um modelo de captação de recursos para oferecer um apoio mais sólido às suas colegas. Em cinco dias, ela reuniu 60 pessoas que se comprometeram a doar R$20,00 por mês, e criou um fundo para mulheres negras. Em menos de seis meses, Aline e seu projeto tinham 300 doadores regulares, capazes de dar suporte financeiro a 6 mulheres. Com o aumento no número de doadores também cresceu o número de pessoas apoiadas. Uma marca de sapatos vegana passou a doar 10% dos lucros de suas vendas para a iniciativa, atitude que chamou atenção da mídia e do público.
No fim de 2020, Aline registrou formalmente o Agbara e, em março de 2021, nasceu no Brasil o primeiro fundo filantrópico para mulheres negras. Velejando em mares desconhecidos, Aline passou a estudar empreendedorismo (Teoria da Mudança, dotação, planejamento estratégico, medição de impacto etc.) para fortalecer a organização. Hoje, o Fundo Agbara atua pela justiça econômica e a emancipação da população negra brasileira, garantindo o exercício pleno de sua cidadania e autonomia.