Joana
Sobre Joana
No Coletivo Luísa Marques, Joana promove um espaço de acolhimento para que meninas possam discutir temas como educação sexual e prevenção à violência
Joana cresceu na Lomba do Pinheiro, uma das maiores periferias de Porto Alegre (RS), onde os índices de violência sexual infantil são muito altos. A jovem foi criada em meio a redes de cuidado coletivo e comunitário, enfrentando desde cedo os desafios de uma realidade marcada pela fome, abandono e silêncio institucional. Diagnosticada com epilepsia e TDAH na infância, viveu dificuldades de aprendizagem que a fizeram desacreditar de si mesma, até descobrir na leitura, na escrita e na escuta um caminho de reconstrução.
Aos 10 anos, uma amiga da escola compartilhou com Joana que era vítima de abuso sexual dentro de casa. Em busca de ajuda, Joana recorreu ao serviço de orientação da escola, mas encontrou portas fechadas e o peso do silêncio. A partir dessa experiência, decidiu criar um espaço seguro para meninas poderem falar, escutar e serem escutadas. Assim nasceu o Coletivo Luísa Marques, fundado dentro da Escola Municipal Saint-Hilaire e batizado em homenagem a uma mediadora de leitura que havia impactado profundamente as estudantes antes de falecer. O coletivo surgiu como um espaço de acolhimento e resistência, liderado por meninas, para meninas, e segue atuando até hoje nas escolas da periferia de Porto Alegre.
O Coletivo Luísa Marques promove rodas de conversa, práticas de autocuidado, contações de histórias com foco em literatura negra e indígena, oficinas de confecção de absorventes sustentáveis e ações de educação sexual e prevenção à violência.
Em 2024, após a realização de atividades em escolas da rede municipal, mais de 300 estudantes denunciaram situações de abuso sexual que estavam vivendo, evidenciando a urgência e a potência do trabalho. Ao todo, mais de 1300 meninas e menines já foram impactadas pelas ações do grupo, que hoje é composto por estudantes negras e periféricas, muitas delas sobreviventes de violências. A liderança de Joana é partilhada, e o coletivo opera com uma lógica horizontal, onde todas decidem juntas e cuidam umas das outras.
O próximo passo do coletivo é desenvolver uma plataforma digital educativa, com trilhas de aprendizagem, rodas de escuta e ferramentas acessíveis para que escolas de outras regiões também possam criar coletivos semelhantes. A ideia é transformar a experiência do Luísa Marques em uma metodologia replicável, feita por e para meninas, que enfrente a violência a partir da construção de redes de confiança e afeto.
Joana acredita que as meninas podem salvar umas às outras quando são escutadas e levadas a sério. Seu desejo é coliderar um movimento nacional de proteção à infância com base no que construiu em sua comunidade, fortalecendo outras meninas para que sejam protagonistas de suas próprias histórias. Para ela, “menina também faz direito” — e faz do seu jeito: com coragem, ternura e rebeldia.