Hagata
Sobre Hagata
No Projeto Boyebi, Hagata incentiva a imaginação e a busca pela ancestralidade para crianças e jovens negros através da literatura afrofuturista
Filha de um pai negro e uma mãe branca, Hagata cresceu na periferia de Araras (SP), em um lar de muito afeto. No entanto, a família cultivava pouco a tradição oral, fazendo com que temas como ancestralidade, consciência racial e representatividade não fossem abordados durante sua infância.
Foi durante o ensino médio técnico de enfermagem, no Colégio Técnico de Limeira, que começou a ter contato com pautas raciais, principalmente por meio de palestras e eventos promovidos pela própria escola, que havia recém-implementado as cotas raciais. Com isso, o colégio passou a receber novos estudantes pretos, pardos e indígenas, o que também expôs muitos casos de racismo naquele espaço.
Diante desse contexto, Hagata, junto de outras colegas — negras e brancas — e uma professora, começaram a se reunir para conversar sobre o que estava acontecendo e pensar em formas de transformar aquela realidade. Em uma dessas trocas, ela conheceu o afrofuturismo, e nele viu uma possibilidade de imaginar futuros onde sua existência fosse valorizada. Em 2023, após passar alguns meses em Portugal estudando literatura africana nas Universidades de Lisboa e de Coimbra, Hagata retornou ao Brasil e criou o Projeto Boyebi, ao lado de cinco meninas e de sua professora.
O nome da iniciativa surgiu após a leitura do livro O Céu entre Mundos, da escritora brasileira Sandra Menezes. Na obra, a protagonista busca por sua ancestralidade, o que inspirou Hagata a buscar suas raízes também. Ela viajou até o norte da Bahia para conversar com familiares mais velhos e, nesse processo, descobriu um sobrenome africano em sua família: Kalumbi, originário do Congo. Uma das línguas faladas no país é o Lingala, e foi assim que o grupo encontrou o nome do projeto — Boyebi, que significa “saber” nessa língua.
O projeto realiza rodas de leitura, debates e doações de livros de literatura afrofuturista para estudantes da rede pública. A proposta é simples e profunda: devolver a crianças e adolescentes negros o direito de se imaginar no futuro, como protagonistas de suas histórias. A partir da linguagem afrofuturista e da valorização de autoras e autores negros, o Boyebi promove autonomia, identidade e pertencimento.
Hoje, a iniciativa é conduzida por uma equipe de diferentes origens, incluindo a irmã gêmea de Hagata e outros jovens que também acreditam na potência da coletividade. Elas estudam cada obra antes de levá-la para as escolas, cuidam da linguagem, preparam os materiais e avaliam os impactos junto às crianças e educadoras. O grupo funciona com uma lógica de cuidado horizontal e busca constante por aprofundamento e responsabilidade.
Desde sua criação, o projeto já impactou diretamente mais de 80 crianças. O próximo passo é ampliar o alcance do Boyebi, conectando escolas, bibliotecas e coletivos de diferentes regiões do país. A ideia é desenvolver uma metodologia replicável que permita que qualquer grupo de jovens possa criar seu próprio núcleo do Boyebi, fortalecendo a imaginação preta como estratégia de emancipação.
Hagata acredita que conhecer sua história muda o futuro. Seu desejo é transformar a educação brasileira a partir das margens, construindo caminhos onde meninas e meninos negros sejam lidos, escutados e acreditados desde cedo. Para ela, “ser uma das cofundadoras do Projeto Boyebi é me orgulhar de quem eu sou, é saber que a nossa ação impacta a vida de muitas crianças e jovens no Brasil, e que estamos construindo a mudança que queremos ver no mundo. É carregar um legado vivo no sangue, porque como diz o lema do Boyebi: saber a história é também sonhar o futuro”.